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Fluvial

Duas epidemias fotográficas mais ou menos inofensivas afectam, respectivamente, os fotógrafos de natureza e os fotógrafos de território. Uma delas é, nas palavras de Lewis Baltz, a ‘estética de calendário’; a segunda, o olhar anestesiado pela ironia. Interessando-se embora pela natureza e dedicando-se, é certo, a um território particular delimitado (as praias e aldeias do interior norte e centro de Portugal), Tito Mouraz mostra-se imune a ambas.

Fotografadas entre 2011 e 2017, estas cenas fluviais denotam antes uma reflexão longa e paciente sobre modos decentes e sofisticados e relevantes de tratar uma geografia visualmente banalizada. Ajuda lembrar esta é, também, a sua geografia pessoal, o que está na origem de questões e dificuldades, fotográficas e não só, acrescidas (como tratar as próprias origens sem indulgência mas também sem dureza excessiva? como reinventar uma paisagem desgastada pelo hábito? etc.). A solução encontrada por Tito Mouraz parece ter sido a construção de uma atmosfera ficcional — uma ode ao lazer — a partir de gestos teatrais e de uma desfamiliarização do olhar, mediante os quais preserva, ainda assim, quase paradoxalmente, um sentido íntimo de pertença e uma empatia desinibida.

A série Fluvial tece ainda uma analogia entre erosão e visão, baseada em analogias visuais entre corpos humanos e outros corpos orgânicos e inorgânicos. Tal como as águas correntes torcem troncos de árvores e moldam blocos minerais, que emergem nestas imagens quase na condição de esculturas de land art, a relação de longo prazo com um território tem neste trabalho de Tito Mouraz uma função depurante e reveladora, levando a que veja estas figuras humanas, antes de qualquer outro aspecto, como formas análogas àquelas.

Este gesto tem um duplo efeito. Por um lado, sinaliza elegantemente os laços telúricos — ou em rigor, fluviais — entre certos corpos e certos lugares. Mutatis mutandis, desafia-nos, algo provocadoramente, por outro lado, a contemplar a perspectiva quase inconcebível de olhar para indivíduos humanos como peças de land art, como meras formas naturais. Figurantes fortuitos de um estudo continuado das formas, da luz e da cor, na geografia íntima que caracteriza o trabalho do autor ao longo da última década, o papel destas pessoas não é muito distinto do de modelos na pintura, salvo que se movem livremente. Dificuldade que aqui se resolve através de princípios de trabalho explicitados, em torno dos quais se declara — intencionalmente ou não — a indissociabilidade entre perícia técnica e decência para com um assunto.

Entre outros, são dignos de nota três. Primeiro, o uso da água não só enquanto elemento de suspensão (devolvendo o observador a uma irredutibilidade da forma humana), mas também enquanto instrumento óptico propriamente dito, a imagem refractada de cujos corpos mergulhados surge como uma metáfora da diluição da forma habitual dos indivíduos em período de férias. Depois, nalguns dos retratos, a conjugação magistral do flash com o recurso a aberturas grandes, conjugação de que resultam não exactamente fotografias da paisagem, mas fotografias de imagens da paisagem, como que cenários indefinidos diante das quais posam corpos humanos destacadamente, e por intermédio das quais o fotógrafo se apropria da natureza como seu amplo estúdio privado. E por último, a maneira como, através de um uso robusto da luz descontínua, os corpos se acentuam ainda em jogos de luz e sombra cujos precedentes talvez não estejam na tradição fotográfica, mas antes na história da pintura, em mestres como Manet ou Courbet. Realista ainda que onírico, transmitindo um sentido pagão da natureza, e criando o efeito atmosférico e de um Domingo infinito, Fluvial imprime-se na memória como um sonho de Verão português.

Humberto Brito